Nestes últimos dias tenho andando com a habitual crise existencial por que todos, eventualmente, acabam por atravessar. E a pergunta tortura-me aqui e ali, quando menos espero dou comigo no melodrama de estar sentado à mesa a arremessar comida goela abaixo e a perguntar-me vezes e vezes sem conta a mesma questão, e todas as outras que lhe estão subjacentes. O que raios é, exactamente, uma alma gémea? Alguém me faça o favor de explicar.
É que não me basta o tradicional conceito de pessoa perfeita para outra. A perfeição, bem vistas as coisas, não existe com muita frequência, e mesmo quando se revela é temporária: uma pessoa, ou apartamento, ou comida, filme, música, caneta que um dia achemos ser perfeita, no dia seguinte (modesta metáfora para futuro) já não o é, e toda aquela beleza que outrora encontrámos nesse objecto perdeu todo o seu brilho e atractivo. E isso, amigos, não é nada bom.
Porque então encontrar uma pessoa periodicamente perfeita para nós não é suficiente. Tem que ser perfeita durante um tempo prolongado, duradouro, suficientemente comprido para que um dia possa olhar para trás para a minha vida e sorrir, sem arrependimentos, e dizer algo típico de alguém que está agradecido e ficar descansado por saber que nada nem ninguém me vai tirar todos aqueles maravilhosos anos. Ficaram comigo graças aos meus actos, à minha memória, e à tal alma gémea que anteriormente referi. Se a encontrar.
Sim, porque dizem que basta encontrá-la para conseguirmos a glória do pote de ouro no fim do arco-íris. Mas aí surge-me outra questão. Este arco-íris em que vivemos tem uma vasta área de cerca de 500 milhões km²… Se retirarmos uns 70% deste valor, mares e oceanos, ficamos com cerca de 150 milhões km². (Podia ser pior)
Mas nas restantes planícies, planaltos, vales, valejos, montanhas, montículos, costas, baldios, prados, florestas e até pedaços de terra perdidos no meio de uma imensidão parva de mar, restam-nos mais de 6 biliões de pessoas. Considerando também a tradicional divisão homem-mulher, uns 50-50, existem cerca de 3 biliões de mulheres. Tendo ainda em conta a minha faixa etária e alguns irrevogáveis valores geográfico-linguístico-culturais, diria que estão espalhadas um pouco por toda a parte cerca de 500 milhões de candidatas ao lugar de minha alma gémea. Não é um número apelativo.
Alma gémea? No meio deste oceano de cabeças? Como?? Quando?? E principalmente: onde??? Não admira que a taxa de divórcios esteja tão alta. Estão mesmo à espera que alguém consiga encontrar aquela única pessoa certa, escondida entre 500 milhões de outras pretendentes? Se alguém alguma vez o conseguiu fazer, está de parabéns. Negando a resposta óbvia: excluído está, naturalmente, Adão. Embora admire a feliz circunstância que juntou este casal, o afortunado pioneiro teve o caminho facilitado.
Somos nós hoje, algumas centenas de milhares de anos depois, que temos todo o trabalho. Depois de feitas as somas e as estatísticas, nada resta a não ser perguntar: “precisaremos mesmo de um outro alguém nas nossas vidas?” Espero bem que não. Espero que não seja um requisito. Espero que não faça assim tanto a diferença.
Com todo o respeito à minha alma gémea, prefiro aproveitar a minha vida com outras coisas que me façam feliz do que desperdiçá-la à tua procura. Vem tu ter comigo.
Friday, December 25, 2009
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