No interior da sua mente contou-as. Eram 75 ao todo, alinhadas, profundas e propositadamente grafadas, Queria encontrar o significado implícito escondido nas letras dispostas, mas 75 palavras - maldosas, hábeis, interesseiras - forçavam em esquivar-se, fugindo e troçando do seu ser.
Que queriam dele? Que faziam ali? Não entendia, apenas estavam... E nesta passividade continuaram, imóveis, hipócritas; daquela folha de papel olhavam de soslaio, à espera do momento oportuno, aguardando o tempo em que alguém suficientemente perspicaz avançasse e as libertasse do seu código.
Obviamente impossível. As 75 elevavam-se bem acima do comum mortal, não permitindo o atrevimento de serem penetradas e compreendidas. Vaidosas, desfilavam, imponentes, como do cimo de um pedestal. Juntas formavam um texto. Criticavam o mundo, gabavam-se das suas fabulosas capacidades como vocábulos, da maneira como tão esplendidamente estavam sequenciadas de modo a dificultar o entendimento de quem as quisesse ler.
E aquele terráqueo, que tanto investira tentando interpretar os supranormais 75 termos, acabara por não atingir nem conhecimento nem proveito, e possivelmente por essa razão não conseguiu obter mais descanso.
Tentou dormir, mas os pesadelos amontoaram-se na sua consciência, assaltando-o necessária mas inapropriadamente.
Os vocábulos ressoavam em sintonia nos seus ouvidos, guerreando pela supremacia do poder. Pela paredes do seu crânio ressaltavam aquelas incompreensíveis palavras, correndo e pulando de alegria, fora do alcance da sua percepção. E esta sensação era demasiado forte para o humano, e fê-lo descontrolar-se: com um movimento súbito, impulsionou-se para fora da cama, e fez a interrogação que, naquele instante, mais importava e mais o incomodava que qualquer outra coisa na sua vida.
75 palavras para quê?
Thursday, June 14, 2007
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